Triste fim de Policarpo Quaresma um herói brasileiro da ficção

Publicado em 11 de janeiro de 2016

Nos dias atuais, em que o oportunismo ideológico surge de modo exacerbado, é bom nos lembrarmos de uma obra que completou 100 anos de lançamento no ano passado.

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“Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, foi publicado em forma de folhetim, pelo Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, veiculado entre Agosto e Outubro de 1911. Em 1915 a obra seria impressa em livro.

A história é ambientada no Rio de Janeiro, logo após a Proclamação da República. O protagonista, Major Quaresma é apresentado de forma irônica como um ingênuo e obcecado nacionalista que busca saídas políticas, econômicas e culturais para o Brasil, uma espécie de Dom Quixote verde-amarelo. Ao final, Policarpo é preso e condenado ao fuzilamento, por ordem do presidente Floriano Peixoto, sob a acusação de traição.

Na epígrafe, Lima Barreto cita o pensamento do escritor e pensador francês Ernest Renan para justificar o fracasso de Policarpo Quaresma, argumentando que os altos ideais, muito nobres, de pouco valem no mundo real, governado por interesses e proveitos pessoais.

“O grande inconveniente da vida real e o que a torna insuportável ao homem superior é que, se se transferirem para ela os princípios do ideal, as qualidades tornam-se defeitos, de modo que, muito frequentemente, o homem completo tem bem menos sucesso na vida do que aquele que se move pelo egoísmo ou pela rotina vulgar”.

Afonso Henriques de Lima Barreto foi jornalista, tendo participado de alguns periódicos anarquistas do início do século XX. Era neto de escravas, tanto do lado paterno como do materno. Sua mãe foi educada com esmero, mas faleceu quando ele tinha apenas 6 anos e seu pai João Henriques era monarquista, ligado ao visconde de Ouro Preto, padrinho do futuro escritor. Talvez as lembranças saudosistas do fim do período imperial, tenham influenciado para que ele tivesse a visão crítica sobre o  regime republicano. Com humor e ironia, ele contrariava o nacionalismo ufanista da época, que insistia em manter os privilégios de famílias aristocráticas e dos militares.

Sua obra, especialmente “Triste fim de Policarpo Quaresma”, reflete exatamente isto, tendo sito criticado por seus contemporâneos por seu estilo despojado e coloquial, que acabou influenciando os escritores modernistas.

A obra foi adaptada para o cinema em 1998, recebendo o título de “Policarpo Quaresma, herói do Brasil”, dirigido por Paulo Thiago, com roteiro de Alcione Araújo. Nele, Policarpo é um sonhador nacionalista que atua no Congresso e quer que o idioma tupi-guarani seja o oficial no Brasil, mas ele foi visto pela sociedade como louco e acabou indo parar no hospício.

O filme contou com grande elenco, encabeçado por Paulo José (Policarpo Quaresma), Giulia Gam (Olga), Beth Coelho (Adelaide) e Othon Bastos (Floriano Peixoto), além de Antônio Calloni, Cláudio Mamberti, Tonico Pereira, Jonas Bloch. José Lewgoy, Ylia São Paulo, Chico Díaz, José Dumont, Luciana Braga e a participação especial de Aracy Balabanian.

A direção musical é de Sérgio Sarraceni e a trilha sonora é bastante apropriada para a época em que se passa a história. Já na abertura, como também no encerramento, apresenta o “Corta-jaca”, de Chiquinha Gonzaga e depois desfila alguns clássicos, como “Odeon”, “Eponina” e “Proeminente”, de Ernesto Nazareth e “Valsa da dor”, de Villa-Lobos. Entretanto há canções atuais e criadas para o filme, de Sérgio Saraceni e parcerias de Carlos Lyra e Paulo Cesar Pinheiro.

Embora tenha respeitado em linhas gerais o enredo original de Lima Barreto, a adaptação tomou algumas liberdades como criar uma relação amorosa entre Policarpo e Olga (no texto de lima Barreto ela é afilhada) e incluir ocorrências atuais, como quando a invasão do sítio “Sossego” do Major Quaresma por um grupo de sem-terras.

Assista o vídeo

Adson Prado Morais

Paraguaçu, janeiro de 2016


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