Trégua de Natal na 1ª Guerra Mundial em 1914

Publicado em 13 de dezembro de 2014

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Trégua de Natal é o termo usado para descrever o armistício informal ocorrido ao longo da Frente Ocidental no Natal de 1914, durante a 1º Guerra Mundial. Na semana que antecedeu o Natal, soldados alemães e britânicos trocaram saudações festivas e canções entre suas trincheiras; na ocasião, a tensão foi reduzida a ponto dos indivíduos entregarem presentes a seus inimigos. Na véspera de Natal e no Dia de Natal, muitos soldados de ambos os lados, bem como, unidades francesas ainda que em menor número, se aventuraram na “terra de ninguém”, onde se encontraram, trocaram alimentos e presentes, e entoaram cantos natalinos ao longo de diversos encontros. As tropas de ambos os lados também foram amigáveis o suficiente para jogarem partidas de futebol.

Diversas iniciativas de paz foram incitadas dias antes do Natal de 1914. A Carta Aberta de Natal foi uma mensagem pública de paz dirigida “às Mulheres da Alemanha e da Áustria”, assinada por um grupo de 101 mulheres sufragistas britânicas ao final de 1914, data em que se aproximava o primeiro Natal da Primeira Guerra Mundial. O Papa Bento XV, em 7 de dezembro de 1914, aludira a uma trégua oficial entre os governos em guerra, pedindo “que as armas possam cair em silêncio, ao menos na noite em que os anjos cantam”. O apelo foi recusado pelas autoridades.

Não há a menor dúvida de que realmente aconteceu a trégua de Natal não oficial de 1914, mas até hoje, muitas pessoas não estão totalmente a par dos detalhes e extensão deste notável hiato na guerra, que ocorreu durante aquelas poucas horas do quinto mês do primeiro ano de conflito.

Embora não houvesse nenhuma trégua oficial, cerca de 100 mil soldados britânicos e alemães estavam envolvidos em cessar-fogo não oficial ao longo da frente ocidental. A trégua começou na véspera de Natal, 24 de dezembro de 1914.
Embora existam muitas histórias individuais acerca de como o Natal não oficial foi comemorado em vários setores, para a maior parte ele foi iniciado pelas tropas alemãs estacionadas defronte às forças britânicas onde uma distância relativamente curta separava as trincheiras ao longo da Terra de Ninguém.

Muitos soldados alemães tinham, como era seu costume na véspera de Natal, começado a montar árvores de Natal, adornadas com velas acesas, com a exceção que, desta vez, foram posicionadas ao longo das trincheiras do Front Oeste.

Inicialmente surpresos e, então, desconfiados, os observadores britânicos reportaram a existência delas para os oficiais superiores. A ordem recebida foi que eles não deveriam atirar, mas, observar cuidadosamente as ações dos alemães.

A seguir foram ouvidos cânticos de Natal, cantados em alemão. Os ingleses responderam, em alguns lugares, com seus próprios cânticos. Aqueles soldados alemães que falavam inglês gritaram votos de Feliz Natal para “Tommy” (o nome popular dos alemães para o soldado britânico); saudações similares foram retribuídas da mesma maneira para “Fritz”.

Em algumas áreas, soldados alemães convidaram “Tommy” para avançar pela “Terra de Ninguém” e visitar os mesmos oponentes alemães que eles estavam tão absortos em matar poucas horas antes.

Um dos detalhes mais interessantes foi a história da partida de futebol entre o regimento inglês de Bedfordshire e as tropas alemãs (alegadamente vencido por 3-2 pelos últimos). O jogo foi interrompido quando a bola foi murchada após atingir um emaranhado de arame farpado.

Alguns depoimentos:

Edward Hulse, um tenente dos Scots Guards, com 25 anos de idade, escreveu no diário de guerra do seu batalhão: “Nós iniciamos conversações com os alemães, que estavam ansiosos para conseguir um armistício durante o Natal. Um batedor chamado F. Murker foi ao encontro de uma patrulha alemã e recebeu uma garrafa de uísque e alguns cigarros e uma mensagem foi enviada por ele, dizendo que se nós não atirássemos neles, eles não atirariam em nós”. Consequentemente, as armas daquele setor ficaram silenciosas naquela noite. Em muitos setores, a trégua durou apenas até a noite de Natal, mas em outras continuou até ao Dia de Ano Novo.

Bruce Bairnsfather, o autor dos famosos cartuns ‘Old Bill’, escreveu: “Eu não perderia aquele único e estranho dia de Natal por nada deste mundo. Encontrei um oficial alemão e sendo um colecionador, disse a ele que havia gostado de alguns de seus botões. Eu trouxe meu cortador de arame, retirei um par de botões e coloquei-os no bolso. Então eu lhe dei dois dos meus em troca. Depois reparei num dos meus artilheiros, que era cabeleireiro amador na vida civil, a cortar o cabelo bastante longo de um boche (alemão) dócil, que estava pacientemente ajoelhado no chão, enquanto a máquina de corte deslizava em volta de seu pescoço.” Resumindo os sentimentos das tropas britânicas quando escreveu: “Todos estavam curiosos: ali estavam os malditos comedores-de-salsicha que tinham começado aquela infernal guerra e, ao fazer isso, nos enfiaram no mesmo lamaçal junto com eles. Não havia um átomo de ódio em qualquer dos lados aquele dia e ainda, no nosso lado, nem por um momento havia a vontade de guerrear e a vontade de deixá-los relaxados”.

Cabo John Ferguson contou como a trégua foi conduzida no seu setor: “Nós apertamos as mãos, desejando Feliz Natal e logo estávamos conversando como se nos conhecêssemos há vários anos. Nós estávamos em frente às suas cercas de arame e rodeados de alemães, Fritz e eu no centro, conversando e ele, ocasionalmente traduzindo para seus amigos o que eu estava dizendo. Nós permanecemos dentro do círculo como oradores de rua. Logo, a maioria da nossa companhia, ouvindo que eu e alguns outros havíamos ido, nos seguiu. Que visão, pequenos grupos de alemães e ingleses se estendendo por quase toda a extensão de nossa frente! Tarde da noite nós podíamos ouvir risadas e ver fósforos acesos, um alemão acendendo um cigarro para um escocês e vice-versa, trocando cigarros e souvenires. Quando eles não podiam falar a língua, eles tentavam se entender através de gestos e todos pareciam se entender muito bem. Nós estávamos rindo e conversando com homens que só umas poucas horas antes estávamos tentando matar!”.

Os acontecimentos da trégua só foram relatados após uma semana, devido à censura não oficial da imprensa em vigor. O silêncio foi finalmente quebrado pelo “New York Times” em 31 de dezembro, e imediatamente seguido pelos jornais britânicos, imprimindo inúmeros relatos em primeira mão de soldados em campo, obtidos a partir de cartas para suas famílias, e editoriais sobre “uma das maiores surpresas de uma guerra surpreendente”. Em 8 de janeiro, foram publicadas fotografias, e os jornais “The Daily Mirror” e “Daily Sketch” divulgaram na primeira página fotos de soldados britânicos e alemães juntos e cantando entre as linhas de combate. O tom do relato foi fortemente positivo, com o Times endossando a “falta de agressividade” sentida por ambos os lados e o “The Daily Mirror” lamentando que o “absurdo e a tragédia” iria novamente começar.

A cobertura na Alemanha foi mais moderada, com alguns jornais criticando fortemente aqueles que tinham tomado parte no acontecimento, não tendo sido publicadas quaisquer imagens. Na França, entretanto, a censura mais controlada da imprensa assegurou que a única notícia da trégua a ser difundida foi através de soldados da frente, ou contadas por homens feridos em hospitais. A imprensa acabou por ser obrigada a responder aos rumores crescentes, reimprimindo um aviso do governo de que a confraternização constituía traição. No início de janeiro foi publicada uma declaração oficial sobre a trégua, alegando que havia acontecido em setores restritos da frente britânica, e pouco mais foi do que uma troca de canções que rapidamente se degenerou em tiroteio.

Embora a história dos conflitos inclua numerosos exemplos de gestos generosos entre inimigos, a trégua de Natal de 1914 foi talvez o mais espetacular e, certamente, o mais renomado de seu tipo. Sobre ela o autor de Sherlock Holmes, Sir Arthur Conan Doyle, comentou: “O episódio humano em meio às atrocidades que tem manchado a memória da guerra”.
Infelizmente a trégua só aconteceu naquele ano, em função da reação dos comandantes que tomaram precauções nos anos seguintes, aumentando os bombardeios de artilharia e os eventos de 1914 nunca mais foram repetidos.

Por: Adson Prado Morais
Paraguaçu, Dezembro de 2014


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