Todo vícios

Publicado em 17 de dezembro de 2014

A atriz Maitê Proença lançou em novembro passado seu quarto livro, o segundo romance.

maite

Dublê de atriz e artista plástica, Stella é uma mulher madura, realizada profissionalmente que se interessa por João, publicitário, dez anos mais velho, feio, dependente de medicamentos controlados para regular seu estado emocional.

A história é contada por três narradores com pontos de vista diferentes: João e Stella, esta dividida em duas, na primeira e na segunda pessoa. A diferença pode ser notada pelo estilo, já que Stella é prolixa, com frases extensas e muitos detalhes e João é seco e direto. Esta diferença é explicada pela própria autora: “Enquanto escrevia o livro, eu estava lendo Virginia Woolf e Alice Munro(canadense prêmio Nobel de literatura). São escritas completamente diferentes. Enquanto uma (Woolf) tem frases longas, grandes descrições e uma escrita sofisticada, a outra (Munro) tem uma forma muito simples de falar. Elas são tão boas que uma hora tive que parar de ler as duas para poder escrever o meu livro”.

Outro detalhe interessante no enredo está no fato de que Maitê gosta de misturar vida com literatura e isso aparece no romance, como no fato de que o pai da personagem Stella matou a mulher a tiros e se suicidou.Exatamente como o pai da autora, que matou a mãe da atriz a facadas, e se suicidou, anos depois. Além disto, a protagonista ainda exprime conceitos que parecem ser da própria autora, como quando discorre sobre seus costumes alimentares: “Não há tabus ou proibições doutrinárias. Troco um conteúdo saudável por um deleite sensorial, mas veneno sem seu equivalente em prazer não topo”.

O tema é eterno e instigante, pois trata dos problemas em uma relação amorosa e, neste caso a trama recebeu um ingrediente moderno, que se sobressai e se torna até mais significativo dentro da trama. Trata-se da forma de comunicação entre os apaixonados, que conversam por mensagens por celular e internet. Este ingrediente moderno faz toda diferença e nos faz refletir sobre os reflexos da tecnologia em assuntos tão delicados como as relações amorosas entre duas pessoas, hoje muito mais complicadas e difíceis de chegarem ao final feliz dos romances tradicionais, pois os contatos são feitos tão somente com palavras, sem o “olho no olho”, além da ausência de todas as outras formas de comunicação, como mímica, expressão corporal e até odores. No enredo pode-se notar que o casal se ama nas mensagens, ao mesmo tempo em que são quase estranhos quando se encontram para demonstrar o amor declarado com palavras.

A autora coloca muito bem as dúvidas e contradições de um coração apaixonado e só não consegue exprimir em palavras a dor de um amor não correspondido, mal compreendido, ou ignorado. Creio que seja um sentimento impossível de se traduzir pela fala, muito menos pela escrita. Sabe-se que pode ser comparada à dor de um parto, ou aquela provocada pelo movimento de um cálculo renal, mas a dor do amor nunca poderá ser descrita com palavras.
Há algumas frases dos personagens, inseridas nas mensagens trocadas pelos amantes que demonstram bem a paixão desenvolvida pelo casal em seus contatos virtuais, bem como o nível de loucura do relacionamento:
“Vou dormir, morrer um pouco”.

“A vida vai sendo atropelada por lugares comuns e eu tenho vontade de fugir! Mas quando estou com você eu quero ficar! Você é o sol do meu planeta.”
“Porque o amor faz doer, enquanto a morte é suave, neutra, eterna.”
“Amar é uma espécie de descontrole, não é? Não comando nada, não estou livre quando amo, o outro rouba minha liberdade e vira um inferno.”

No enredo de Maitê, o casal chega ao rompimento, em função principalmente da inconstância e da falta de compromisso de João, fazendo com que Stella lhe escreva uma carta, enviada pelo correio tradicional, dizendo-se desencantada com o romance, mas que termina declarando seu amor: “Ia continuar nisso, escrevendo uma imensa carta, com uma variedade de histórias, algumas pra fazer você rir (ainda quero agradá-lo, veja que tonta), outras com as impressões que me ficaram, nem boas, nem ruins, reveladoras. Mas cansei disto também. Não vale a pena. Amo você. Você me faz mal. Com o beijo que nunca demos. Stella.”

Apesar de todos os problemas enfrentados pelos personagens, deve-se considerar o livro nos deixa uma mensagem clara de que amar, não só o amor entre um homem e uma mulher, mas também o amor por uma ideia, por um projeto, por alguém, é muito bom. O amor nos torna pessoas melhores, pois a única coisa na vida que é tão forte como o amor, é a morte.
Por fim, o livro termina com João, um ano depois do rompimento com Stella, declarando-se eternamente apaixonado, sentindo-se pronto para sua amada.Entende-se que e a autora deixou em aberto que o casal ainda se amava e que o romance não terminara.

Adson Prado Morais
Paraguaçu, dezembro de 2014


Deixe o seu comentário:

Todos os comentários postados são de responsabilidade de seus autores.