Produção de conhecimento na Área de Letras na região do Juruá

Publicado em 16 de dezembro de 2014

romisson

Como vimos, ultimamente, sobretudo nas aulas regulares da disciplina de Organização do Trabalho Acadêmico, o aprofundamento nos estudos teóricos e científicos que versam sobre a ciência nos seus mais variados campos de estudo e de cosmovisão, tem uma contribuição fundamental para o desenvolvimento de qualquer trabalho cientifico na área de conhecimento humano, com uma ótica de destaque para a importância da pesquisa no âmbito acadêmico, como fim de contrapor a inércia do ensino superior no Brasil, de acordo com o que dizem especialistas e teóricos da educação.

Especificamente, os recentes ‘’mergulhos’’ neste tema, servirão como base teórica de pesquisa, fundamentalmente, naquilo que envolve senso comum e ciências humanas, a importância da pesquisa e extensão, e a produção de conhecimento na área de educação e letras, ressaltando os aspectos regionais e levando em consideração as características transversais das ciências que tem o ser humano como objeto de estudo e pesquisa.

A importância da pesquisa na Universidade

Em que pese os alardes da expansão do ensino no Brasil, nas ultimas décadas, muitos especialistas têm se dedicado a questionar a indolência do ensino superior no Brasil, uma vez que a Universidade tem se preocupado apenas em transmitir o conhecimento enquanto ‘’produto’’ e não como um processo histórico fundamentado na pesquisa cientifica. Vejamos o que diz Antônio Joaquim Severino:

‘’Sem dúvida, a prática da pesquisa no âmbito do trabalho universitário contribuiria significativamente para tirar o ensino superior dessa sua atual irrelevância.’’

Vale ressaltar, que a ausência da pesquisa cientifica na universidade, é apenas um dos aspectos da fragilidade do ensino superior no País. Além disso, o que mais dificulta a introdução da pesquisa em larga escala no currículo acadêmico são, justamente, os próprios entraves na Legislação Educacional vigente no Brasil e a ineficiência na gestão publica das políticas educacionais.

Características gerais do senso comum

O vasto campo das ciências nos permite falar de várias correntes, tanto no campo das ciências humanas como no campo das ditas ciências exatas. Nas humanas, se destaca o que a filósofa Marilena Chauí denomina de senso comum.Um pensamento que possui atributos meramente humanos, podendo estes, serem imprevisíveis, racionais e lógicos, de acordo com o conhecimento empírico de cada pessoa, grupo ou região. Logo, sua característica mais forte é o aspecto qualitativo e não quantitativo, uma vez que não há parâmetros comprovados cientificamente. Podem também ter características genéricas, quando uma ideia consensual permeia todo um coletivo.

Outra característica marcante do senso comum é a repetição e a constância das ações e das situações. Enfim, são várias as características com projeções de sentimentos de medo, angustia e uma transmissão desses sentimentos de geração para geração.

Características gerais da atitude científica

Já no campo das ciências exatas, é importante destacar que aquilo que Chauí chama de atitude cientifica, um pensamento fundamentado nos experimentos e nas descobertas comprovadamente cientificas. Não se baseia na ação humana racional, pois o que para nós parece fato, para a atitude cientifica exige uma constatação à sua maneia. É objetiva e quantitativa, pois trabalha com medidas e padrões, além de buscar a exatidão em seus resultados.

A atitude cientifica tem uma característica de valorizar todas as formas técnicas de se chegar a um resultado, inclusive, trabalhando com comparativos e fundamentos nas constatações.

Outro fator que promove uma diferenciação é o valor acentuado aos detalhes minuciosos nos resultados. Não é emotiva, porém técnica. Não credibiliza as forças secretas ou sobrenaturais, e prima, essencialmente, pelo conhecimento para que possa superar as fraquezas humanas como medo, angústia, ansiedade e outras marcas do senso comum, um pensamento antagônico à ciência exata.
Tudo isso é bem definido pela citação da autora: ‘’Antes de mais nada, a ciência desconfia da veracidade de nossas certezas, de nossa adesão imediata às coisas, da ausência de crítica e de falta de curiosidade. Por isso, onde vemos coisas, fatos e acontecimentos, a atitude cientifica vê problemas e obstáculos, aparências que precisam ser explicadas e, em certos casos, afastadas.’’

Universidade da Floresta

Na região do Vale do Juruá, extremo oeste do Acre, ascendeu a partir do ano de 2003, uma concepção ampla e coletiva sobre ciência na plenitude de uma discussão com caráter universal. Tudo isso se deu com o advento da Universidade da Floresta – um conceito de universidade do século XXI. Uma ideia de construção de um projeto que envolvesse – e promovesse -, o equilíbrio entre os saberes tradicionais e o conhecimento científico da universidade. Levando em conta uma forma natural de fazer e transmitir conhecimento.

Foi um marco importante para todos os segmentos de ensino. Desde a melhoria na infraestrutura do Campus Floresta, até a implantação de vários novos cursos nas áreas das ciências agrárias, ciências da saúde, ciências da natureza, engenharias, além dos cursos modulares de Direito e Jornalismo.

Produção de conhecimento na área de Letras

No campo da educação e Letras, os avanços também foram significativos. Os novos cursos de Letras e Literatura espanhola e Línguas Indígenas, aliado ao fortalecimento dos cursos de Letras Vernáculo e Letras e Literatura Inglesa, já existentes desde os primórdios do Campus da Ufac em Cruzeiro do Sul, provocou o fortalecimento da produção de conhecimento, dando enfoque ao vasto campo de estudo das linguagens e da cultura, no âmbito regional.

A riqueza de diversidade étnico-cultural preservada ao longo do tempo, na região do Vale do Juruá, centro da região Amazônia legal brasileira, certamente é a razão mais consistente e que serve como base para os estudos científicos na área de Letras, desbravando os elementos mais intrínsecos da linguagem amazônica. A vinda dos nordestinos para o Acre, no auge da borracha; a vinda de agricultores, na maioria sulistas, para desbravar os recém-criados projetos de assentamento nos anos 80, são características da miscigenação de povos e línguas, nessas terras. Todavia, há um grau acentuado de diversidade até mesmo no âmago da região: seja entre comunidades rurais e centros urbanos; seja entre as tribos indígenas, seja entre as antigas populações tradicionais e a crescente massa da juventude, seja entre o saber cientifico e o saber empírico. Em cada núcleo habitacional, mesmo nos mais longínquos rincões dos rios e igarapés, há sua maneira sui generis de produzir e disseminar conhecimento.

Contudo, como estamos falando de conhecimento cientifico, nada mais justo que e produzir conhecimento cientifico, formando-o a partir do que já é comprovado pela ótica do conhecimento comum. Ratificando esse pensamento, sabemos que a produção de artigos, TCC’s, e monografias por professores e acadêmicos dos cursos de letras, voltado para as correntes linguísticas, são resultados científicos daquilo que antes era apenas um pensamento genérico, transmitido e creditado por gerações de maneira intransponível pelo próprio saber.

Todo e qualquer estudioso da área que se aprofundar, levando em conta o contexto histórico como pressuposto teórico dos fundamentos da pesquisa, será capaz de provocar uma oxigenação dos resultados das pesquisas com fundamentos em todas as dimensões de conhecimentos.

Mudanças científicas e progresso cientifico

Assim como todos os elementos sociais, a ciência também muda. Podemos destacar os dois principais momentos de mudança cientifica: quando passou de um ideal de representação para um ideal de construção do pensamento cientifico, e, outro momento foi a transformação de ciência teorética e qualitativa para a ciência clássica e quantitativa, no século XVIII e XIX. Nesse sentido, confere-se que a mudança é a marca nevrálgica da ciência.

O termo ‘’mudança’’, é, nitidamente uma ideia de aprimoramento, no sentido de que os componentes sociais, científicos, naturais e humanos, tendem a mudar de maneira crescente e tornando-se cada vez melhor que antes. Evolutivos. Teoria fundamentada no primeiro grande marco da mudança cientifica, citado acima, o ideal de descobertas cumulativas, fazendo da ciência uma crescente e de barreiras intransponíveis, no que se refere a buscas de conhecimentos.

Há, contudo, outro fator que contrapõe essa ideia de evolução. Uma concepção teórica do filósofo Gaston Bachelard afirma que o termo mais apropriado não é ‘’mudança’’, mas sim ‘’progresso’’, pois, segundo o teórico, tal evolução se dá no sentido de expansão, quantitativo. Essa ótica diferente de evolução científica difere-se do ideal de ciência qualitativa, uma vez que dá muita importância ao papel dos muitos métodos e das mais recorrentes e modernas invenções tecnológicas.

Entretanto, essa ‘’distorção’’ que vimos nos parágrafos anteriores, baseia-se, apenas em duas concepções diferentes de ciência, quando o filósofo acha necessário expor as diferentes correntes de pensamento filosófico, afim de que seja dada importância às diferenciações, por mais minuciosas que possam ser, para que isso sirva de estimulo na busca de novas formas de pensar e fazer o mundo das ciências.

Na essência do artigo, ‘’Produção de conhecimento na área de Letras na região do Juruá’’, as mudanças são advindas de maneira genérica, representadas pelos números gradativos de formação de professores, pelos livros publicados com as temáticas regionais como forma de conteúdo e pelas titulações dos docentes do Centro de Educação e Letras, com inúmeros artigos e teses de mestrado e doutorado reverberando a temática central do nosso estudo – a linguagem amazônica juruaense.

Revolução cientifica nas ciências humanas: o estruturalismo

A revolução cientifica aconteceu também no âmbito das ciências humanas. Antes do século XIX, todas as teorias que tinham o homem como objeto de estudo eram de responsabilidade da Filosofia, única ciência, até então, capaz de promover um estudo compreendendo o homem como ser mutável e capaz de elaborar e executar seu próprio pensamento.

Além disso, o que, de fato, contribuiu para o advento das ciências humanas, foram as ciências matemáticas e naturais, que tinham como base experimentos técnicos e científicos, que já eram mais antigas e fundamentaram as mais novas ciências, no sentido de que o homem, mesmo sendo o próprio objeto de pesquisa cientifica humana, tal estudo exige, também, fases e resultados experimentais, e este pressuposto foi obtido das ciências exatas e naturais já existentes.

Outro fator preponderante no surgimento das teorias de estudo sociais, foio fato de ter surgido num período onde prevalecia o uso racional do conhecimento empírico, que tem como característica, a contestação e a capacidade de mutação. Daí, se fundamenta a corrente mais inovadora das ciências humanas, o estruturalismo.

No inicio, as correntes teóricas que estudam o homem, propriamente dito, tiveram muitas contestações cientificas e muitas indagações. Vejamos: Como uma ciência que tem como base o estudo do homem, vai trabalhar com experimentos? Como compreender teorias e leis objetivas se o homem é subjetivo? São questionamentos respondidos no decorrer do tempo, com os arranjos e a desenvoltura de todo o pensamento cientifico e, principalmente com a inovação, sobretudo no âmbito do ensino superior e da pesquisa, com a constatação de que uma teoria é inerente a todas outras e suas fundamentações teorias e pressupostos, advém de uma mesma essência de estudo.

Somente a partir de meados do século XX, que começou a surgir outros conhecimentos especulativos capazes de cumprir um papel que pudesse determinar mais detalhadamente a função de cada ciência, uma destas correntes foi o estruturalismo, com a incumbência de definir, teoricamente, a referência e a contribuição de cada ramo das ciências humanas. Assim como a linguagem teve ao longo do tempo um comportamento especifico ao desenvolvimento das estruturas linguísticas e a busca por todas as descobertas possíveis nessa área, a mesma finalidade teve a literatura moderna, de representar o pensamento artístico e, concomitante a isso, a imitação da realidade. Assim, consolidou-se a importância do estruturalismo para definir as formas estruturais das ciências humanas.

Escrito por: Romisson Santos

Acadêmico de Letras da UFAC
e Ativista Socioambiental


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