Imparcial é a minha cafeteira

Publicado em 17 de dezembro de 2014

Por: Leandro Altheman

Comparo jornalista imparcial como a minha Cafeteira

cafeteira

Tenho vontade de dizer um palavrão toda vez que ouço alguém fazer pregação sobre de “imparcialidade”. Pior ainda se este alguém for um jornalista.
Fico pensando o que andam ensinando nas escolas de jornalismo. Na que eu frequentei, aprendi que imparcialidade é algo que simplesmente não existe.

O mais honesto que um jornalista pode ser consigo mesmo e com seu público é admitir a sua parcialidade.

Imparcialidade significa ser capaz de produzir notícia e informação de maneira totalmente objetiva, sem qualquer traço de subjetividade.

Ora, e como é possível, sendo o jornalista ele próprio um “sujeito” abstrair totalmente a sua própria “subjetividade” ? O próprio ato de “apropriar-se” da realidade é um processo subjetivo e desconhecer isso é o primeiro passo para que o jornalista inadvertidamente imponha a sua própria interpretação da realidade como “verdadeira”.

O comunicador que ainda aja desta maneira, das duas uma: não possuiu formação adequada, ou está usando de má fé.

Estamos fartos de exemplos ao nosso redor. Do Jornal Nacional à Revista Veja, todos gostam de alegar uma pretensiosa imparcialidade que nunca possuíram. Sua opiniões estão, implícita ou explicitamente, eivadas de uma visão de mundo próprias de uma classe social. Negar que haja uma posição política por trás disso, não é apenas desonestidade: é exercício de estelionato intelectual.

Assédio Moral

No entanto é com base na falácia da imparcialidade que alguns meios de comunicação passam a exigir de jornalistas, desfiliação partidária, de quem por ventura possuir.

Só uma estupidez sem tamanho pode justificar tal coisa.

Primeiro, porque a não-filiação partidária não é garantia de que o jornalista ou comunicador não possua sua própria visão política.

Segundo, porque o exercício de participação política é garantia constitucional. Exigir desfiliação partidária além de representar uma marcha-ré para a democracia, configura assédio moral, incompatível com qualquer empresa, muito mais se tratando de uma empresa de comunicação de rádio e tele-difusão, que administra na verdade não apenas um simples negócio, mas uma concessão pública.

“Formatar” e empregar jornalistas incapazes (ou proibidos) de pensar e agir politicamente equivale uma castração, já que a visão política é uma daquelas partes que tem grande importância na vida do jornalista.

É muito parecida com a ideia de castrar eunucos para tomar conta de um harém. Ou talvez, como os famosos “castratti” da renascença: jovenzinhos que tinham seus testículos retirados. Sem nunca alcançar a maturidade, os “castradinhos” podiam sempre cantar com o mesmo tom de voz que agradava aos seus patrões.

O “harém” neste caso representa os próprios interesses políticos e econômicos da emissora. Enquanto se exige dos seus “eunucos castrados” total obediência ao seu próprio projeto político-econômico, ainda comete o estelionato moral de dizer ao seu público que é “imparcial”.

Imparcial é a minha cafeteira!

Ela faz café forte ou fraco, de acordo com a medida de pó e água que eu coloco nela.

Jornalistas não são cafeteiras e jornais tampouco são fábricas onde se enfia um porco de um lado e se retira a salsicha do outro.

O estelionato moral, consiste em se colocar para o público como mero transmissor de informações, sem qualquer cunho ideológico, sem qualquer interesse político. Que meigo!

Mas no frigir dos ovos, um público cada dia mais antenado, percebe claramente as tendências políticas e eleitorais daquele meio, e o que é pior tratando de modo desonesto as diferenças políticas sem a qual, não haveria democracia.

Em se tratando de concessões públicas, o mínimo de respeito com o público, e com os profissionais, é tratar da questão política de maneira honesta e não com o obscurantismo de quem guarda cartas escondidas na manga, para no momento propício usar como um trunfo em benefício de seus próprios interesses.

Blog: Terra Náuas


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