A Corrupção da Inteligência – Intelectuais e poder no Brasil

Publicado em 21 de agosto de 2017

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O carioca, doutor em Antropologia Social, eventualmente articulista no Senso Incomum e tradutor na Record, Flavio Gordon lançará um livro pela editora Record. “A Corrupção da Inteligência – Intelectuais e poder no Brasil” chega às livrarias na próxima segunda-feira. A obra foi anunciada em destaque pelo próprio editor, Carlos Andreazza, conhecido pela publicação de literatura liberal e conservadora nos últimos anos, que apresentou o livro com grande exaltação, dizendo que é “das mais poderosas e corajosas  reflexões publicadas no Brasil em anos” e que “é um espanto a consistência do pensamento de Flavio Gordon”.

O escritor concedeu longa entrevista ao portal G1, publicada em sua edição de hoje, para falar sobre o livro, a corrupção, normal e da inteligência e o domínio das esquerdas sobre o pensamento político e nas universidades nos últimos tempos. Apesar de bem extensa, vale a pena lê-la completa, mas separei alguns tópicos que dão uma idéia do conteúdo:

Sobre as formas de corrupção: “O entrelaçamento entre as duas formas de corrupção deu-se de maneira muito visível no modo sui generis como o PT a exerceu. Eu não teria nada a objetar à afirmação de que a corrupção tradicional é praticada por todos os partidos brasileiros. Mas isso não deveria nos impedir de ver que só um deles, o PT – que, mais que um partido, eu prefiro tratar como uma “rede”, que engloba outros partidos, movimentos e organizações sociais diversas – é portador de uma ampla narrativa ideológica para justificá-la e até mesmo enobrecê-la. Só o PT, fiel à tradição comunista-revolucionária de disfarçar o seu mal com as cores do bem, pôde contar com um exército de artistas e intelectuais a defender incondicionalmente os seus corruptos. Enquanto os corruptos dos outros partidos demonstravam em público alguma vergonha, mesmo que fingida, os do PT erguiam no ar o punho orgulhoso, sendo recebidos como heróis no seio da militância. Delinquir em nome de um pretenso “bem” é sempre muito pior do que delinquir simplesmente, e é isso que confere à corrupção petista, a única amparada por um gigantesco exército de corruptos intelectuais, seu sabor especificamente patológico e assustador.”

O domínio da esquerda nas universidades impede o desenvolvimento de ideologias contrárias: “Ninguém escolhe falar a sua língua nativa, e seria impossível optar por recusá-la. E, dentro dos meios intelectuais e artísticos brasileiros, sobretudo no interior da universidade, a cultura política de esquerda é hegemônica. Nesse ambiente, alguém que se recuse a reproduzir o comportamento, os maneirismos e o vocabulário consensualmente admitidos pagará um pesado preço social, correndo o risco de romper com seu ciclo de relações, do qual depende inclusive a continuidade da carreira. A palavra-de-ordem “Impeachment é golpe!” está para a nossa cultura política acadêmica assim como o arroz-e-feijão está para a nossa cultura gastronômica. E o infante universitário só cresce e fica fortinho ingerindo generosas porções daquele alimento ideológico.”

A comparação entre esquerda, chamando-a de “política de fé” e a direita, de “política do ceticismo”: “A política de fé é revolucionária, e acredita em rupturas definitivas via ação política, com a criação de uma nova ordem social a partir do zero (“nunca antes na história deste país” etc.), e até mesmo de uma nova humanidade, livre dos pecados e das impurezas advindos das configurações político-sociais anteriores. Essa visão da política implica uma gigantesca concentração de poder, e uma baixa disposição à negociação, já que os adversários não são vistos como partes numa disputa simétrica, mas como obstáculos no caminho, tão certo quanto necessário, rumo ao paraíso terrestre. Já a política do ceticismo é essencialmente antirrevolucionária. Para os adeptos dessa visão, não há, em política, soluções definitivas e sínteses superiores. Não há “avanço” e “retrocesso”. A política seria um diálogo interminável num mesmo plano, uma dialética sem síntese, por assim dizer, exercício de convivência dos heterogêneos e contrários. Os adversários políticos podem ser derrotados, mas nunca superados. E o passado, antes que obstáculo, serve de referência para as ações futuras.”

A aparente incoerência no Brasil, onde os partidos e políticos de direita foram quase que apagados, mas a tendência popular é liberal e conservadora: “É por isso que já vai fazer um século desde que a esquerda, especialmente com o chamado “marxismo ocidental”, passou a deixar de lado os aspectos econômicos do capitalismo, concentrando-se em vez disso no domínio da cultura, dos valores e do imaginário. E é nesse terreno cultural que se dá atualmente a disputa entre esquerda e direita. Se é verdade que o campo da direita praticamente não existe de modo formal e organizado, tanto em termos de representação político-partidária quanto termos de expressão cultural, o fato é que temos um povo majoritariamente conservador em termos de valores, mas que, por falta de opção, acaba muitas vezes votando em partidos e candidatos de esquerda. Há hoje em dia uma curiosa divisão na sociedade brasileira, em que sua elite cultural – academia, imprensa e meio artístico – tende à esquerda, e o povo tende à direita. Isso é muito visível em temas como o aborto, a diminuição da maioridade penal e o direito ao porte de arma, nos quais as posições respectivas do povo e da elite (entendida aqui não em sentido econômico) costumam ser diametralmente opostas”.

O motivo de o brasileiro não notar que a esquerda está tirando o futuro de nossos estudantes: “Este é outro dos efeitos nocivos da corrupção da inteligência nacional: a consagração de uma imagem radicalmente materialista da realidade, que aqui terminou por degradar-se em dinheirismo. É triste o que vou dizer, mas parece que o bolso se tornou o nosso único órgão sensível. Esperneamos – não sem razão, convém esclarecer para evitar mal-entendidos – quando tomam nosso dinheiro, mas ficamos estranhamente apáticos quando nos tomam a vida e comprometem o futuro de nossos estudantes. Fremimos de indignação diante de um político corrupto, mas olhamos com uma certa indiferença e um senso de inevitabilidade para assassinos e estupradores. Execramos o PT mais por ter desviado dinheiro público do que por tê-lo usado para sustentar a ditadura chavista na Venezuela, que hoje, com a cumplicidade declarada da esquerda brasileira, massacra a sua população em plena luz do dia, cometendo as mais bárbaras violações dos direitos humanos. Parece mesmo haver algo de muito errado com a nossa indignação moral e senso de prioridades.”

O domínio da esquerda no campo acadêmico teve início na década de 1960 e foi auxiliado pelo general Golbery do Couto e Silva, já nos anos 1980, que promoveu a descompressão do regime, elegendo a cultura de início: “Para se ter uma ideia do problema, basta dar uma vasculhada nos bancos de teses e dissertações da Capes, da BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações) ou das nossas mais importantes universidades. Os principais autores do pensamento conservador são praticamente inexistentes aí. A grande maioria dos alunos jamais sequer ouviu falar desses nomes, quanto mais de suas ideias. Os trabalhos que mencionam alguns deles são raríssimos, dissolvendo-se como gotas de vinho num oceano de estudos devotados a Marx, Engels, Gramsci, Marcuse, Lukács, Althusser, Sartre, Foucault, Deleuze, Bourdieu e Paulo Freire. Dentro da academia, portanto, a direita não passa de uma assombração, produto de uma imaginação paroquial e autorreferente. Apenas uma irrisória minoria de acadêmicos travou contato direto com o pensamento de direita real, autoconsciente e historicamente identificável. No geral, a imagem da direita consagrada pela intelligentsia universitária é aquela rudimentarmente desenhada por seus críticos de esquerda.”

Por: Adson Prado


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