Ariano Suassuna e o Movimento Armorial

Publicado em 5 de junho de 2014

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Movimento artístico com objetivo seria criar uma arte erudita, a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro que teve como um dos fundadores o escritor Ariano Suassuna. O movimento procura orientar para esse fim todas as formas de expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura, entre outras expressões.

Segundo Suassuna definiu na Revista Pernambucana de Desenvolvimento em 1977: “Em nosso idioma, ‘armorial’ é sempre substantivo. Passei a empregá-lo também como adjetivo, primeiro, porque é um belo nome, depois, porque é ligado aos esmaltes da heráldica, limpos, nítidos, pintados sobre metal ou, por outro lado, esculpidos em pedra, com animais fabulosos, cercados por folhagens, sóis, luas e estrelas.” Ou ainda, como ele já definiu em outra ocasião: “a arte armorial é uma recriação, é busca de suas origens de sua pureza original embora transcenda essas mesmas origens, seja na tapeçaria, na escultura, na pintura, no teatro, na literatura, na música, em quaisquer de suas manifestações a arte armorial está embebida de um espírito dionisíaco, do gosto da festa, de comunhão.”

A palavra armorial deriva inicialmente de armus, significando “braço”, ou mais restritamente, “ombro”, passando a “armadura”, que, por sua vez, tem raiz no latim. Da mesma raiz advém armário, que hoje se entende como local para guarda de utensílios em geral, no latim, armarium, o local onde se guardam as armas. Atualmente entende-se como relativo à armaria dos brasões.

O Movimento Armorial foi lançado oficialmente, no Recife, no dia 18 de outubro de 1970, com a realização de um concerto e uma exposição de artes plásticas realizados no Pátio de São Pedro, no centro da cidade. Surgiu sob a inspiração e direção de Ariano Suassuna, com a colaboração de um grupo de artistas e escritores da região Nordeste do Brasil e o apoio do Departamento de Extensão Cultural da Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários da Universidade Federal de Pernambuco. Teve início no âmbito universitário, mas ganhou apoio oficial da Prefeitura do Recife e da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco. Seu objetivo foi o de valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do país.

Segundo Suassuna, sendo “armorial” o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, a heráldica é uma arte popular. Desse modo o nome adotado significou o desejo de ligação com essas heráldicas raízes culturais brasileiras.

O Movimento tem interesse pela pintura, música, literatura, cerâmica, dança, escultura, tapeçaria, arquitetura, teatro, gravura e cinema. Uma grande importância é dada aos folhetos do romanceiro popular nordestino, a literatura de cordel, por achar que eles expressam as aspirações e o espírito do povo brasileiro, além de reunir três formas de arte: as narrativas de sua poesia, a xilogravura, que ilustra suas capas e a música, através do canto dos seus versos, acompanhada por viola ou rabeca.

São também importantes para o Movimento Armorial, os espetáculos populares do Nordeste, encenados ao ar livre, com personagens míticas, cantos, roupagens principescas feitas a partir de farrapos, músicas, animais misteriosos como o boi e o cavalo-marinho do bumba-meu-boi. O mamulengo ou teatro de bonecos nordestino também é uma fonte de inspiração para o movimento, que procura além da dramaturgia, um modo brasileiro de encenação e representação.

Em 1970, no plano da música, Ariano formou o Quinteto Armorial, com um violino, uma viola, duas flautas e percussão, esperando que músicos de formação erudita e com os instrumentos eruditos pudessem captar o que ele, talvez por não ter formação musical, pudera perceber de riqueza no sincretismo indígena e mourisco-ibérico com o canto gregoriano jesuítico, num barroco nosso, ecoando na rabeca, nos pífanos e na zabumba dos rincões sertanejos.

Ariano Vilar Suassuna nasceu em família de políticos e seu pai, João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna foi presidente (governador) da Paraíba entre 1924 e 1928, tendo sido assassinado no Rio de Janeiro durante a Revolução de 1930, cujo estopim foi a morte do então governador paraibano, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, que pertencia ao grupo político oposto. Ariano inclusive nasceu no palácio do governo paraibano, em 1927.

Em 1950 Ariano formou-se em Direito, advogou até 1956, quando se tornou professor de Estética na Universidade Federal, onde se aposentou em 1994. Atualmente é secretário do governador Eduardo Campos, de Pernambuco. Segundo ele, em consonância com sua obra, pode-se escrever sem erros ortográficos, ainda que utilizando uma linguagem coloquial.

Suassuna tem recebido siginificativas e merecidas homenagens nos últimos anos. Em 2002 foi tema de enredo no carnaval carioca da Império Serrano; em 2008, foi novamente tema de enredo, desta vez da Mancha Verde no carnaval paulista. Em 2013 sua mais famosa obra, o Auto da Compadecida foi o tema da Pérola Negra em São Paulo.

Há uma realista descrição de Ariano feita por seu amigo, o também dramaturgo Hermilo Borba Filho:

“Magro e alto, de uma coerência extremada, radical em suas opiniões, é preciso vê-lo numa discussão com seus amigos (porque, com seus inimigos, basta ler seus artigos); zombeteiro, argumentador, desnorteante, irreverente. Vive, com a maior convicção, o preceito de Unamuno* de que o artista espalha contradições. É capaz de destruir o argumento mais sério com uma piada ou sair-se de um problema metafísico dos mais angustiantes numa conversa ligeira. Tem horror aos aparelhos modernos enceradeira, vitrola, televisão, rádio, telefones, considerando-os coisas do demônio. Gostaria de crer em Deus como as crianças crêem, mas crê com angústia, fervor e perguntas. Não vai a reuniões oficiais, coquetéis, espetáculos, mas amanhece o dia num bate-papo ou ouvindo repentistas. Tem pavor de avião e se martiriza com uma alergia que lhe dá comichões no nariz. Seu caráter é ouro de lei, e, embora o negue, esforça-se para amar os inimigos, como manda o evangelho. A arte e religião são por ele encaradas de maneira fundamental.” *Escritor espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936).

Ariano Suassuna tem se apresentado pelo Brasil todo com uma palestra interessantíssima a que ele dá o nome de “Aula espetáculo” em que demonstra com muita clareza o que é passar conhecimento, ao mesmo tempo em que diverte seus ouvintes/assistentes. Para começar, como defensor intransigente da cultura brasileira, com certeza por influência dos modernistas de 1922, ele não permite que sua apresentação seja chamada de show pois, “xô” é uma interjeição própria para enxotar galinhas e a língua portuguesa já tem uma palavra que representa exatamente o que queremos dizer: uma representação ou demonstração que atrai e leva as pessoas à contemplação, um espetáculo.

No espetáculo ele fala de todas as formas de demonstrações artísticas, especialmente das que contém elementos nordestinos, com a bagagem de um homem com a força intelectual de seus 84 anos e a jovialidade de uma pessoa de 30 anos, sempre criticando o que enxerga como estrangeirismos indesejados na formação cultural dos brasileiros, como, por exemplo, quando censura os movimentos ou gêneros punk e funk, palavras que ele sempre pronuncia abrasileiradas, com o “u” soando como “u” mesmo.

Adson Prado Morais


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