A morte é um dia que vale a pena viver

Publicado em 5 de junho de 2014

Palestra Dra. Ana

Aliviar a dor e o sofrimento de doentes e familiares e resgatar a biografia de pacientes. Este é o exercício diário de Ana Claudia de Lima Quintana Arantes, médica formada pela FMUSP e especialista em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium e Universidade de Oxford, além de pós-graduada em Intervenções em Luto. Foi a responsável pela implantação das políticas assistenciais de Avaliação da Dor e de Cuidados Paliativos do Hospital Israelita Albert Einstein e é sócia fundadora da Associação Casa do Cuidar. Atualmente trabalha em consultório e como médica assistente do Hospice do Hospital da Clinicas da FMUSP, na Unidade Jaçanã.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os cuidados paliativos são uma abordagem que melhora a qualidade de vida do paciente e de sua família em caso de doenças que ameacem a continuidade da vida.Eles incluem a avaliação e o controle de forma impecável não somente da dor, mas de todos os sintomas de natureza física, social, emocional e espiritual. Enfim, deve-se focar o conforto e o bem-estar do paciente e dos familiares quando se sabe que a doença não responde mais aos tratamentos convencionais e levará ao desfecho inevitável, configurando-se o contrário da obstinação terapêutica, em que todos os recursos tecnológicos são utilizados para manter a sobrevida – num quadro que, não raro, se traduz numa pessoa inconsciente cujas funções orgânicas só se sustentam porque ligadas a aparelhos.

Formada em 1993, fez residência em Geriatria e Gerontologia no Hospital das Clínicas, pós-graduação em Intervenções em Luto pelo Instituto 4 Estações de Psicologia e especialização em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium e Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Em 2007, criou em São Paulo, ao lado de três colegas, a Casa do Cuidar, organização voltada para a prática e ensino de cuidados paliativos.

Além de tudo, em seu blog prescreverpoesia.blogspot.com originou do livro de poemas Linhas Pares (Scortecci Editora, 2012).O volume, ela assina como Claudia Quintana, poeta “tão mais doce e feliz do que a doutora Ana”, numa apropriada coincidência de sobrenome com Mario Quintana, um de seus autores preferidos.

Há uma entrevista da médica ao Jornal da USP, merece ser lida por inteiro (disponível em http://www5.usp.br/wp-content/uploads/ana_claudia_arantes_entrevista_usponline.pdf), mas destaco algumas das respostas:
“Acompanhei o Charlie, um senhor alemão que estava no Einstein. Quando o médico fez diagnóstico de câncerde pulmão, ele disse: “Olha, não quero quimioterapia nem nada, quero morrer em paz”.O médico falou que não dava conta disso e que iria encaminhá-lo para mim. Na primeira conversa, o Charlie perguntou: ‘Você é uma médica capaz de me deixar morrer naturalmente? Eu disse: ‘Sou, só que é naturalmente. Não vou adiantar nada, não me peça para acelerar o processo’. Ele superou muitas limitações. O Charlie era ateu. Não sei se é coincidência ou não, mas todos os pacientes ateus que eu acompanhei tiveram mortes maravilhosas. O pessoal vai na primeira classe, sem estresse nenhum. Podiam não ter religião, mas eram pessoas altamente espiritualizadas, para quem a natureza é sagrada”.

“Existem até umas escalas que falam de coping(enfrentamento)religioso. Existe o coping negativo, que é a pior pedra no sapato, porque é aquele que vai trazer a culpa, a punição. Pior do que isso é se sentir abandonado por Deus: “Puxa, eu fiz tudo certo, fui ao culto, paguei o dízimo, não traí, não roubei, mas caramba, Aids? Câncer? Não sou um dos escolhidos? Como Deus fez isso comigo? Ficar de mal com Deus no fim da vida é muito ruim”.

“Em agosto de 2010 saiu um artigo no New EnglandJournalof Medicinesobre um grupo de pacientes com câncer de pulmão. No diagnóstico, essas pessoas já tinham doença avançada, com metástase. Metade do grupo seguiu para tratamento convencional, mais o chamado bestsupportivecare (cuidados de suporte tradicionais), e a outra metade seguiu para convencional mais cuidados paliativos.

O estudo foi fechado com três anos, e 90% dos pacientes tinham falecido.O grupo que recebeu paliativos teve menor incidência de depressão, melhores índices de qualidade de vida, menor incidência  de procedimentos invasivos no fim da vida – e a coisa que “chocou” a comunidade: eles viveram três meses a mais. Como assim, se o tratamento medicamentoso é o mesmo? Bom, então agora está começando a ficar antiético não recomendar cuidados paliativos. Se você vai dar uma droga que custa R$ 15 mil por aplicação para aumentar a sobrevida em uma semana, por que não instituir um programa detratamento que não está relacionado a drogas novas e que pode prolongar portrês meses a vida? E boa vida, com menos depressão, com mais qualidade e chegando ao final sem ir para a UTI, sem ser entubado, sem ser submetido a agressividade nos seus últimos dias.Se você está bem cuidado, é gostoso viver. Se não está bem cuidado, não vale a pena. Cuidar bem não é pegar na mão e fazer carinho. É você estar com sua família tranquila, com seus sintomas adequadamente controlados – não controlados ‘meia boca’, com mais ou menos dor, mais ou menos fadiga, mais ou menos náusea. É dor bem controlada, fadiga bem controlada, náusea bem controlada… Essas coisas fazem com que as pessoas vivam mais. No dia a dia do consultório a gente vê pessoas que, tecnicamente, teriam uma expectativa de vida de 4 semanas, mas vivem quatro meses. E todo mundo se pergunta como. Aproveitando, né?”.

Eu estive por alguns anos, como paciente, em situação próxima às vividas pela Dra.(não terminal, mas diagnosticado com uma patologia que leva à morte 90% das pessoas) e considero que seu trabalho deva ser realmente maravilhoso e, sem desmerecer o trabalho dos médicos que lutam para salvar vidas, acho que levar as pessoas a uma boa morte pode ser ainda mais importante, para que a vida possa ser bem vivida, até a última gota, como o máximo de prazer ou o mínimo de sofrimento.

http://www.youtube.com/watch?v=ep354ZXKBEs (Palestra da Dra. Ana)

Adson Prado Morais
Paraguaçu, junho de 2014


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