A copa da tristeza

Publicado em 30 de maio de 2014

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A Copa de 1950 deveria ter sido disputada por 16 equipes, divididas em quatro grupos. Entretanto, três países (Escócia, Turquia e Índia) desistiram após terem obtido a vaga. Assim, ela foi jogada por apenas 13 equipes.
Os campeões de cada grupo se classificariam para o quadrangular final, disputando o título em turno único, com jogos de todos contra todos.

1ª Fase – Grupo 1: Brasil, Iuguslávia, Suíça e México; Grupo 2: Espanha, Inglaterra, Chile e Estados Unidos; Grupo 3: Suécia, Itália e Paraguai e Grupo 4: Uruguai e Bolívia. Classificaram-se Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai.

A confiança no título nascera quatro anos antes, quando foi definido que o Brasil seria a sede do Mundial. Para isso, os dirigentes resolveram erguer no Rio de Janeiro o estádio do Maracanã, o maior do mundo, palco perfeito para a conquista histórica.
O Brasil ainda não vencera nenhuma das três competições anteriores, em 1930 no Uruguai, foi vencida pelo país sede, quando o Brasil foi 6º colocado; 1934 na Itália, novamente vencida pelo país sede, quando o Brasil foi 14º colocado e, finalmente 1938 na França, também vencida pela Itália, quando o Brasil teve destacada participação, chegando à semifinal, perdendo para a Itália.
Diz-se que nesta semifinal os brasileiros teriam menosprezado o adversário. Além disso, em decisão controversa, o técnico Ademar Pimenta optou por deixar Leônidas da Silva, o maior artilheiro da equipe no banco de reservas.

Perdemos por 2X1, restando ao Brasil a disputa pelo terceiro lugar, contra a Suécia. Com Leônidas em campo, a seleção venceu por 4 a 2 e encerrou de forma honrosa (3º colocado) sua melhor participação em Copas até então.

Em 1950 a festa foi programada para o Maracanã, coma seleção brasileira estreando no dia 25 de junho, quando o México foi derrotado por 4X0. No dia 28, o Brasil enfrentou a Suíça no Pacaembu, em São Paulo. Para agradar a torcida paulista, o técnico Flávio Costa trocou todo o meio-campo. A seleção jogou mal, empatou em 2X2 e saiu de campo vaiada. O resultado deixou o Brasil em situação complicada. Para avançar ao quadrangular final, a seleção precisaria vencer a Iugoslávia, que vinha de duas vitórias (3X0 na Suíça e 4X1 no México). O jogo aconteceu no Maracanã, no dia 1º de julho. Mais de 140 mil pessoas viram o Brasil ganhar por 2X0 e se classificar para a fase final.

O primeiro adversário do Brasil no quadrangular final foi a Suécia, no Maracanã. Em tarde inspiradíssima de Ademir, autor de quatro gols e o Brasil goleou os suecos por 7X1. Quatro dias depois, 150 mil pessoas foram ao Maracanã assistir ao duelo com a Espanha, que na primeira rodada do quadrangular havia empatado em 2X2 com o Uruguai. O Brasil começou arrasador e, após 31 minutos, já vencia por 3X0, com um gol de Ademir e dois de Chico. Quando o ponta-esquerda da seleção brasileira, Chico, marcou o quarto gol dos seis que o Brasil faria sobre a Fúria espanhola, a favorita ao título, ouviu-se no Maracanã um coral de 200 mil vozes cantando: Eu fui às touradas em Madri/ pararatibum, bum, bum/E quase não volto mais aqui/pra ver Peri/Beijar Ceci/paratibum, bum, bum! A marchinha de João de Barro e Alberto Ribeiro, lançada para o carnaval de 1938. A seleção brasileira tinha uma equipe muito superior às demais.

Enquanto isto, o Uruguai empatara com a Espanha (2X2) e vencera a Suécia (3X2). Assim, na última partida os brasileiros só precisavam de um empate com o Uruguai.

Todos estavam certos de que seriamos campeões. A certeza estava nas ruas, nas casas, nos bares e na mente de cada torcedor. Estava nos dirigentes, na comissão técnica, nos jogadores, até mesmo nos adversários. Só não contavam com a garra do capitão da seleção uruguaia, Obdulio Varela e nos chutes certeiros de Schiaffino e Ghiggia.

Era 16 de julho de 1950, e no início do segundo tempo, o brasileiro Friaça abriu a contagem, mas, o que era para ser o começo da festa se transformou no princípio da tragédia. O Brasil partiu ainda mais para o ataque e deixou a defesa desguarnecida. Aos 21min, Ghiggia bateu Bigode na corrida e tocou para Schiaffino empatar.

Animado com o gol, o Uruguai se lançou ao ataque e conseguiu o que parecia impossível. Aos 34min, Ghiggia superou novamente Bigode e entrou na área para chutar à esquerda de Barbosa, batendo goleiro do Vasco e da seleção. No estádio foram 200 mil pessoas chorando como num colossal enterro e no Brasil todo o espanto e a tristeza inomináveis.

O gol acabou com a empolgação da torcida brasileira, que viu o Uruguai segurar o jogo nos minutos restantes para ficar com o título de campeão mundial pela segunda vez, igualando-se à Itália em número de títulos. O episódio entrou para a história como “Maracanazo”, uma das maiores zebras de todos os tempos.

Algumas frases memoráveis publicadas após o “Maracanazzo”
“Deixei de acreditar em Deus no dia em que vi o Brasil perder a Copa do Mundo no Maracanã”, Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista.

“Não gostei de ver aqueles 200 mil torcedores tristes; não gostei de ver o Rio às escuras e sem carnaval. É a vida. Era campeão e não sentia uma total alegria pelo feito” Obdulio Varela, capitão da equipe uruguaia.
“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o estádio como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu.” Crônica de José Lins do Rego no “Jornal dos Sports”, no dia seguinte à derrota brasileira.

Adson Prado Morais


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